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Crônica de domingo: Cearenses comem lagarto para não morrer de fome


Foto e texto: Delfim Vieira (Jornal do Brasil- 1983)


Texto, do fotógrafo, originalmente preparado para acompanhar a foto na inscrição no Prêmio Esso de 1983 (o que não chegou a ser feito):

Estas são fotos do período 17 a 26 de agosto de 1983, em que tentei, com o repórter Egídio Serpa, retratar a seca do Nordeste para o Jornal do Brasil. O conjunto e cada uma delas revelam a realidade de milhões de brasileiros após cinco anos consecutivos sem chuvas.

Logo à chegada ao Ceará, dirigi-me ao interior, aos chamados bolsões da seca. Não foi preciso andar muito para me deparar com cenas inesquecíveis, principalmente para quem vive no “sul-maravilha” (como diria o Henfil). A primeira, foi uma leva de homens famintos atravessando um grande açude, absolutamente seco, em direção ao povoado conhecido, ironicamente, como Lagoa do Juvenal. Iam receber os Cr$15 mil prometidos na frente de trabalho. Não conseguiram, e, nesse dia, quatro cidades foram invadidas e saqueadas.

Mas, eu ainda tinha visto pouco, quase nada. Dia seguinte, encontramos em Irauçaba, a somente 150 quilômetros do luxuoso hotel onde estava hospedado em Fortaleza, uma família que se alimentava de ratos-do-mato (punaré) há três anos. No primeiro momento, o Egídio pensou tratar-se do peixe tucunaré, mesmo sendo algo impossível naquele lugar. Era rato mesmo, semelhante às ratazanas daqui.

Novamente instalado em meu quarto de hotel, deprimido e sem conseguir dormir, vi pela televisão o prefeito de Apuiarés tentando sensibilizar o Governo para a gravidade da situação do município. Lá, dizia, estavam comendo calangos (lagartixas) para sobreviver. Se eu estivesse aqui, provavelmente reagiria com descrédito. Seria possível? Exagero?

Não era. Encontramos no dia 22 um homem muito enrugado e muito magro, que nos mostrou o produto de um dia de caça: um calango morto com atiradeira, pronto para virar torresmo e ser comido em pedacinhos, com farinha, por toda uma família. Essa foto deu origem a duas charges (uma de Ziraldo, outra de Chico Caruso), além de provocar uma discussão no Congresso Nacional entre senadores do PDS e PMDB – “é válido mostrar algo tão brutal?” – discordavam. Tenho certeza que sim.

“O Francisquinho eu tô quase certa que vai morrer, e este aqui, na barriga, vai pelo mesmo caminho”. Acho que, em toda minha vida, não vou jamais esquecer aquela mulher grávida, rodeada de crianças com olhos saltados pela desnutrição, dizendo esperar pela morte dos filhos. E eu também era expectador, só que sem entender como a fome e o desespero podiam transformar-se e traduzir-se em conformadas palavras. Fiz a foto, no mesmo instante em que desejava ser chamado de volta ao Rio pelo jornal. Era terrível pensar que, se ficasse ali uns dois meses, conseguiria fotografar o nascimento de uma criança e, com certeza, sua morte menos até de dois meses depois – como informavam os atestados de nascimento e óbitos do cartório de Ideal.

A última foto foi feita no caminho para o Aeroporto de Fortaleza. À certeza e gratificação profissional da tarefa realizada, misturavam-se alívio, sentimentos de culpa e de impotência por voltar ao Rio, deixando aquilo tudo para trás. Foi então que vi aquela multidão de homens, mulheres e crianças maltrapilhos. A capital, até aquele instante acompanhando a seca somente através de relatórios e entrevistas dos prefeitos do interior, estava sendo invadida silenciosamente.

Do sertão tinham vindo aquelas centenas de pessoas em busca de algo para comer e beber. Não foi preciso pedirem. Sua chegada teve imediata reação de comerciantes amendrontados, temerosos de saques; rápida e prontamente, começaram a distribuir alimentos em frente às escadarias da catedral de Fortaleza. Quando parti, aquela gente devia estar comendo pela primeira vez em muitos dias, sei lá quantos.

Delfim Vieira > Começou no Jornal do Brasil, onde estagiava pelo curso de Administração de Empresas, como laboratorista, para em seguida se tornar fotógrafo, em 1978. Trabalhou no JB até 1986, de onde se demitiu durante a cobertura da Copa do Mundo do México.

Foi para O Globo, tendo chegado à função de Coordenador da Fotografia.

Em 1993, transferiu-se para a sucursal carioca de O Estado de São Paulo, chefiando o setor de Fotografia até 2001.

Raimundo Moura

Radialista formado, blogueiro, graduando em serviço social e Conselheiro Tutelar, atualmente apresento o Programa Alerta Geral Vale do Curu pela 91.9 de Pentecoste e colaboro com o Jornal Integração da Atitude FM de Itapajé.

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